Chamorro vence e a Globo gatinha

O argentino Francisco Chamorro (ao centro) vence a Copa América de Ciclismo. De laranjado, Kléber Ramos da equipe paranaense Dataro, de Foz do Iguaçu

O argentino Francisco Chamorro (ao centro) vence a Copa América de Ciclismo. De laranjado, Kléber Ramos da equipe paranaense Dataro, de Foz do Iguaçu

Tivemos neste domingo a abertura da temporada da Elite brasileira, com a 12ª edição da Copa América, disputada no entediante e sonolento circuito do Aterro do Flamengo (com uma esticadinha até o elevado da zona portuária). Foram 110 km corridos acima de 40 km/h, debaixo de um sol quente e com um público vergonhoso para nós amantes do ciclismo.

Tecnicamente a prova foi aquilo que sabíamos que seria: uns poucos tentando o impossível, que era fugir do pelotão naquele planão e com retões sem fim. Vamos e venhamos, não existe Fabian Cancellara no mundo que consiga escapar e sobreviver ao pelotão num circuito deste. 

A vitória do argentino-quase-brasileiro Francisco Chamorro não foi surpresa alguma. Assim como não seria se Nilceu Aparecido, segundo colocado, fosse o vencedor. Aliás, aposto que se fizessem 100 provas ali, Chamorro venceria 90, Nilceu 10 e alguma zebra venceria uma, confirmando que toda regra tem sua exceção.

Para ciclistas deste nível, corrida de 110 km no plano não permite uma seleção que dê emoção à prova. Quando esta Copa acontecia no Autódromo de Interlagos, um circuito bem mais seletivo, a distância era entre 40 km e 80 km. Ou seja, o circuito era melhor mas a distância era bizarramente curta. Não é à toa que das 12 edições da prova, Nilceu venceu 4 e Chamorro venceu 3.

Podemos dizer que, comparando com o grande ciclismo europeu, a nossa Copa América é equivalente a Paris-Tours, “La Classique des Sprinters”. Afinal, como dizem por lá, os sprinters também merecem ter uma grande prova para eles. A diferença é que o pelotão europeu também tem San Remo, Flandres, Liège, Flèche, San Sebastian etc. E nós não…

Eu realmente não entendo a fascinação que as novas gerações de dirigentes têm de fazer corridas em circuitos pobres de dificuldades. A tal Copa da República era uma verdadeira “volta no quarteirão”, em Brasília. Parecia corrida de exibição, com direito a transmissão ao vivo.

Antes não era assim. Quando ainda faziam corridas na cidade de S.Paulo, sempre tinha subida e dificilmente a coisa acaba em sprint de pelotão. Certamente que estes circuitos vai-e-vem dão menos trabalho para os organizadores. E estes irão justificar com a eterna dificuldade de se fechar circuitos maiores e melhores.

O ESPORTE NACIONAL DO BRASIL – o nosso lindo e amado ciclismo não é esporte nacional, mas o esporte nacional de (quase) todo ciclista é meter o pau na Globo, por ela transmitir poucas provas.

Mas o que deve incomodar mesmo a maioria – incluindo a minha pessoa – é a qualidade das transmissões. Vamos analisar com calma esta estranha relação da Globo com o ciclismo:

1. A Copa America pertence a Globo Esporte (divisão da Rede Globo que promove eventos esportivos e ganha dinheiro com isso). Só por isso é que vemos anunciantes de grande porte na corrida (SEDEX, OLX etc.) – a CBC e a maioria das Federações, com os atuais dirigentes, jamais conseguiria esta façanha.

2. O dinheiro arrecadado dos anunciantes pela Globo Esporte paga os custos operacionais de fazer a prova acontecer e ainda precisa “comprar” o tempo de transmissão da “mãe” TV Globo. Ao final, o “produto” Copa America precisa dar lucro. E como está no 12º ano deve dar algum lucro. Não muito, pois do contrário a Globo transmitiria ciclismo com a frequência que transmite vôlei, futsal, basquete e outros.

3. Portanto, a Globo manda no evento (no local, no horário, na premiação etc.). E apesar de toda grana e poder, estranhamente, ela cerca-se de gente que não entende de ciclismo ou que não tem pulso para reverter “ordens que vêm de cima”. Explico: os eventos ciclísticos “Globais” são mal feitos. Ou são provas sem emoção (Copa America e da República) ou são transmitidos erraticamente “de madrugada” (Volta de São Paulo), quando ninguém assiste.

4. Imagine um circuito ou, de preferência, estrada com subidas, proporcionando ataques, perseguições, enfim, EMOÇÃO de verdade ao longo de toda a transmissão. O que temos nas provas hoje é que a coisa é tão morna que narrador e comentarista passam metade do tempo (ou mais!) explicando que a bicicleta tem duas rodas, que o vento atrapalha etc.

5. Ok, tem que explicar o básico, pois o Esporte Espetacular, num dia como hoje, é assistido por 10 mil amantes do ciclismo e 10 milhões de pessoas que nada entendem disso. Mas a dinâmica da transmissão seria outra se tivéssemos um percurso decente.

6. Com relação a narração, realmente é muito pobre. Eu nem culpo o profissional, que é convocado para transmitir ciclismo uma vez por ano e, aposto, não passa os outros meses do ano procurando links na internet para assistir Phil Ligget ou Carlos Andrés narrarem grandes provas internacionais.

7. No quesito comentarista, a chegada do nosso campeão Luciano Pagliarini foi uma evolução sem igual. Mas…entendam o seguinte, no campo da transmissão de TV e rádio, o papel do narrador é levantar temas da competição para que o comentarista os aborde tecnicamente. Quando o narrador não entende nada do assunto e fica pedindo explicação do por quê a roda não é quadrada, nem Pagliarini nem Eddy Merckx fazem milagres. Quem assiste a TVE e vê Carlos Andrés trocando ideias com Pedro Delgado, sabe do que estou falando.

8. É preciso entender também que a Globo é uma grande empresa de comunicação, que tem um padrão estético (de transmissão) e uma linha editorial, ambos bem definidos e pouco flexíveis. E como isso o ciclismo sofre, pois na Globo é proibido divulgar o nome da equipe (patético!!!!!!!), não se pode criticar nada ou ninguém seja lá qual for o motivo, e por aí segue. Nas transmissões europeias, se elogia e se critica o tempo todo. Na Globo, é aquela coisa sem graça.

9. O destaque da transmissão desta Copa America vai para aquele grafismo, mostrando as posições do ciclista, do pelotão, das situações de prova. Foi ótimo para o meu vizinho que não sabe andar de bicicleta e um porre para mim. Mas como para cada Fernando Blanco tinha 100 mil que não entendiam nada…

10. O final da prova, em termo de transmissão, foi uma lástima. Não mostrar o pódio e não fazer uma entrevista sequer, foi muito feio. Foi um encerramento truncado, fora do padrão de qualidade da Globo, mas a reportagem sobre o Cristiano Ronaldo foi longa demais…

11. Concluindo a Rede Globo já entendeu que ciclismo é um bom produto. Mas ela não sabe muito bem o que fazer com ele. Precisaríamos de mentes iluminadas, que mostrasse para ela como fazer corridas que gerem emoção, em locais que atraiam público e, principalmente, que ajudem a gerar campeões.

O ciclismo brasileiro ganharia mais se fizessem um CRI numa zona central de uma grande cidade, destacando o Magno Prado, do que circuitos planos medíocres, em que sempre brilham os mesmos sprinters (que nem são mais competitivos no plano internacional).

Voltando ao lado puramente esportivo do artigo, os ciclistas fizeram mais até do que podiam. A fuga arrojada da dupla FUNVIC (ou Pinda, como gosta a Globo, e como a equipe permite ser tratada…), Breno Sidoti e Carlos Alexandre Maranelli, foi muito bonita. O sprint também foi, apesar de colocarem a linha de chegada a 500 metros depois de uma curva em “U”…fala sério, isso é burrice, é de propósito ou o quê?

Estou ficando chato demais, né?…reclamando muito de todas estas barbeiragens, mas elas me incomodam demais. É isso.

Este conciso (apesar de extenso) e excelente texto foi retirado do perfil Ciclismo Pro , do facebook.

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