Escravos do carro

Há alguns meses assisti na televisão uma extensa reportagem mostrando os recursos usados pelos motoristas para “amenizar” as torturantes horas de congestionamento: sistema de som, dvd, netbook, bancos massageadores e outros aparatos mais. O foco era apresentar opções para as pessoas se entreterem nos inevitáveis (?) congestionamentos das grandes cidades. Oras, por que não falar em opções para acabar, suprimir, atacar pela raiz os motivos que levam aos congestionamentos? Talvez seja porque o objeto congestionador é um dos motores da economia nacional e, também, um dos principais anunciantes destas mesmas emissoras de tv.

O vídeo acima é o motivo maior deste texto. Ele é explícito, retrata com inocente e alegre ironia a mais dura e triste realidade que nós – os pós-modernos – vivemos. Somos escravos do carro. Em função dele abdicamos dos amigos, das relações, da Vida. Esta análise, vista de um ângulo maior pode ser muito mais abrangente, mas vamos nos restringir aqui à questão dos carros.

A subversão dos valores é óbvia. Devemos viver para o consumo e em nome dele, trabalhamos mais e vivemos menos; e este é apresentado como o comportamento padrão. Não importa o congestionamento, a poluição, os custos que são muito maiores do que o bem em si (impostos, gasolina, seguro, etc). A indústria precisa ter lucros e nós, precisamos entregar-lhes nossas vidas voluntária ou compulsoriamente. A publicidade, no limite de uma análise minimamente racional, consegue vender no atacado a ideia de que ter é ser e, consumir é viver. O governo, bem… O governo reduz imposto para aquecer a economia, aumentar o PIB e dar lucros estratosféricos aos bancos que, com o endividamento (e empobrecimento) em massa da população fatura muito com as altíssimas taxas de juros.

Na contramão deste “consenso”, trago uma teoria e um exemplo.

Tempos atrás, por indicação do professor Norberto Back, fui ler O Ócio Criativo, do italiano Domenico de Masi. Contrapondo o modelo de sociedade ocidental, tomando os Eua como exemplo maior, o escritor critica a idolatria do trabalho, do mercado e da competitividade. Segundo ele, vivemos a era pós-industrial, onde os avanços tecnológicos precisam – e devem – servir às pessoas, pelo bem da própria sociedade. Não se trata de uma visão marxista, pois a preocupação do sociólogo italiano não é exclusivamente com os trabalhadores (falar em proletário é coisa do século passado segundo o autor). A preocupação dele é com a sociedade, de um ponto de vista global, pois o maior risco que a raça humana sofre é com o absoluto desequilíbrio social, produzido pelas desigualdades geradas pela economia (e somente ela) global.

Mergulhando no testemunho do José C Fernandes, Eu andei de ônibus em 2010, reproduzido no blog da Bicicletada Curitiba, temos um exemplo, um alento, uma perspectiva que precisa ser compartilhada. Ele nos conta como fez para abandonar o carro. Simples, sincero, sem fazer gênero, sem reivindicar para si a salvação da pátria. Ao final do texto encontramos na mesma linha e reforçando os argumentos do Fernandes, o Gunnar e o Luís Carlos, que contribuíram com comentários que tratam o mesmo tema – renúncia ao carro- só que estes, lançando mão das virtuosas bicicletas. Todos os 3 estão libertos, mas o comercial do vídeo acima, sugere a existência de muita gente acorrentada por aí.

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