A desconexão do contato

Pela janela eu recebia alguns olhares com poucas expressões. Eu concentrava o pensamento à tudo que ocorria em minha volta, mas foi difícil interpretar o que chegava a mim pelas pessoas até me perceber no mesmo plano. Eles eram assustados, desconfiados, tediosos, com dificuldade de se mostrarem pacientes. Certamente, se cruzavam com o meu e em ambos existia um escudo. Mas quem era o inimigo se estávamos na mesma situação? A resposta mais clara é que estar na mesma situação, não é estar no mesmo trem: eis a diferença.

Posso afirmar que os filmes de ficção/futurísticos não entram nas minhas listas de favoritos, mas eles sempre despertam um interesse, ou ao mínimo, uma curiosidade nessa interpretação do futuro e do caos que alguém um dia teve. Mas, de toda forma, poder participar na vida real me deixou com impressões que a tela não provoca.

O meu roteiro era pobre, não teve nenhuma super catástrofe natural, nem um vírus mortal epidêmico e o planeta também não estava sendo invadido por extraterrestres. As pessoas tinham ido visitar suas famílias, seus amigos, namorados e namoradas e agora queriam voltar para o lar. Era simples assim, mas bastou para nos deixar em uma situação sem escolhas, pois a rodovia estava cheia de automóveis de uma maneira que nunca tinha presenciado e agora tudo que podíamos fazer era acompanhá-los.

Eu sei que essas palavras que se ligam a congestionamentos já não produzem um efeito muito grande na maioria das pessoas, principalmente em quem mora em grandes centros. Mas ainda há muitas preocupações sobre congestionar a passagem? Sim, óbvio que sim. Creio que se falarmos que estamos acostumados e que ‘damos um jeito’ na situação, então estaremos prontos para ser enterrados.

Quando começamos à nos indagar dentro do carro dessa situação, a visão de filmes em que todos precisam sair da onde vivem no mesmo momento nos veio à mente, mas com um diferencial: o momento passa lento e não há nenhuma adrenalina presente. Pelo contrário, a visão é tediosa e carece de vida. Estávamos em vários ‘não-lugares’ e não pertencíamos àquilo; ninguém pertence. Se o fim do mundo fosse certo, ninguém escolheria estar no meio da estrada, preso dentro de um carro quando ocorresse. Porém, poucos escolhem se posicionar contra o processo que dá passos largos ao caos maior ou total.

Será que não estávamos no mesmo trem, ou em qualquer sistema de transporte eficiente, moderno, barato, rápido e sustentável porque somos incapazes de fazer isso? Não, nós temos tecnologias, instrumentos, forças, idéias, soluções e criatividade, mas estamos presos à um poder, uma ganância, um sistema; presos ao petróleo e aos tentáculos de sua indústria. Os automóveis particulares precisam ser vendidos para serem vendidos: eis a função. Não é como incentivar todo mundo a ter vassouras em casa para limpar o pó. O carro é vendido como liberdade pessoal e cria prisões para a sociedade inteira. Tem algo que não conecta, é quase como descartar a realidade.

E enquanto isso, os nossos contatos estão subindo os degraus na longitude do tempo. Nossas relações se perdem nesses vazios que criamos. Será que logo não teremos mais verdadeiros lugares para nós? Eu acho que não perdemos a vontade de ir e vir, mas a nossa vida não pode estar entre o vácuo dos dois verbos.

post por vinicius z.

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